segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um caminho ainda tortuoso, ainda um tanto triste



São quase duas e meia da madrugada. Deveria estar dormindo. Pelo bem ou pelo mal, aceitei pegar um trabalho temporário. Faltam apenas 8 dias de trabalho e 2 semanas em São Paulo. Parece demorar uma eternidade a passar.

Escrevo aqui especialmente ao meu único e mais fiel leitor, meu caro amigo Laércio.

Sabe bem amigo, que infelizmente acabo censurando-me, continuamente. E sabe bem, que o que peço dos outros não é muito, acho de fato em realidade, que é bem pouco, mas diante das relações sociais das quais nós estamos cercados, torna-se pedir muito.

Infelizmente não somos pobres de espírito o suficiente para aceitarmos a mediocridade, e nem elevados o suficiente, não só de espírito, como materialmente, para podermos transitarmos tranquilamente nos meios pequeno-burgueses da alta cultura, ainda que grande parte desta esteja degenerada, acredito que poderíamos ao menos rir ironicamente como Sócrates, das baboseiras que são ditas como se fossem coisas geniais, que não passam de banalidades repetidas continuamente.


Faço um esforço que pouco poderia dizer em palavras, pela minha aproximação com as pessoas. É claro que isto é algo que não pode-se forçar artificialmente, mas as pessoas estão mesmo resguardadas em si mesmas, receosas, reticentes.


Sabe meu caro, que além de ter de me censurar continuamente, não tenho amigos de longa data, amigos de infância não existem.

Isto dói em minha alma, não pela idealização romântica de amizade, mas por saber dolorosamente como pensando na longa duração de minha curta vida, não tenho ninguém que seja capaz de conviver proximamente comigo, e que ao mesmo tempo possa me compreender.

Consigo verificar como até mesmo virtualmente, sou jogado à indiferença por meus pares e me vejo a margem, mesmo me fazendo presente. Não sou como eles, não faço parte dos que sofrem junto e fazem o discurso do escravo feliz, aquele que sofre a chibatada, mas a única coisa que faz é reclamar do carrasco, mas não do chicote, muito menos da escravidão.

Nós queremos demais, e toda a suposta irrestrição, transgressão e libertariedade nos é bem claramente mentirosa, mas não é à eles.

Isto nos coloca num lugar difícil meu caro. E ninguém está disposto a perder tempo com o outro, muito menos com pessoas como nós. 

O imediatismo do viver, por vezes pior do que o animal, os fazem se preocupar imediatamente com suas "obrigações", ainda que não se saiba mais o que se está pensando e o que se está fazendo.

Esta solidão, vai me corroendo a alma, de maneira semelhante acredito, ao que passava Rousseau nos seus últimos 15 anos de vida.

Sou jovem ainda mas já sinto estas dores da alma e isto verdadeiramente me preocupa, ainda que eu não esteja em condição tão ruim como a de nosso autor romântico, me vejo próximo do abismo, como disse você mesmo, e lembro-me bem, circundando a seta que guia às respostas certas, aos caminhos verdadeiros. Ou como diria um amigo, num hotel à beira do precipício.


Este hotel me é demasiado desconfortável, mas para aqueles que só tem olhos para ver de fora, parece que minha situação é a de um luxo do qual não posso reclamar. Têm olhos para ver, mas não conseguem enxergar. Esta situação do mundo realmente me leva a pensar que está tudo perdido.

Ter escolhido ficar mais três semanas em São Paulo por conta desse trabalho, tem realmente me incomodado. Tem me colocado num estado de quase isolamento social o qual me é pouco fácil de remediar aqui.

Quero voltar à São Carlos, mas sei bem que pareço estar alimentando a mim mesmo, uma vida talvez muito mais deliciosa lá do que cá, por mais uma idealização romântica. Espero ainda estar errado.


Meu compromisso comigo mesmo me leva a um lugar que ninguém aceita em que eu esteja: tenho sempre que me reportar ao passado ou ao futuro, o que fiz e o que farei, para justificar minha suposta falta de compromisso comigo e com as instituições.

É como se eu estivesse mesmo caminhando para o caminho do pária, tendo plena consciência disto. Mas ninguém aceita que alguém que parecia da nobreza, caminhe em direção ao pior dos lugares por vontade própria.

Acho difícil suportar a solidão, deve ter percebido isto há muito antes destas palavras que aqui escrevo.

Escrevi esses dias, algo que conversei contigo e me lembrei nitidamente: não preciso ser nada, e não quero ser nada.

É realmente difícil para mim me circunscrever em termos e categorias que para mim fazem tão pouco sentido: oriente ou ocidente? Não, não quero defender "ser" nenhum. Mas ainda estou no limite entre os dois mundos, coloco ainda as coisas na história e saio da circularidade oriental.

Difícil talvez seja a palavra que mais pensei e repeti nesse texto.

Mas para mim,  é realmente difícil pensar que somente tu me entendes.


Se dou algum crédito ao destino e ao inefável, pois sabe que ateu e materialista ingênuo nunca fui, digo que ainda bem que este destino me quis que tivesse ao menos a tu como amigo.


Tornou-se isto quase uma carta, mas era previsível.

Vou dormir agora, porque infelizmente tenho trabalho cedo. E só de pensar nisso me dá aquele desprazer de estar vivo nesse pouco de tempo antes do sono... não temos mais sequer o direito de dormir o quanto quisermos...

Nos falamos em breve, tenhamos força a viver que as vezes o espírito baixa mesmo... poderíamos chamar de inferno astral por exemplo... quem sabe não é isso, já que sabe que compartilho de tais conhecimentos que se faz dos astros... 

Mas é isto meu caro, se ler isto e puder, me dê uma ligada ou entre na internet que devo levar o notebook para o trabalho e espero poder usá-lo lá.

Abraço, 
Leandro Kenji

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