segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um caminho ainda tortuoso, ainda um tanto triste



São quase duas e meia da madrugada. Deveria estar dormindo. Pelo bem ou pelo mal, aceitei pegar um trabalho temporário. Faltam apenas 8 dias de trabalho e 2 semanas em São Paulo. Parece demorar uma eternidade a passar.

Escrevo aqui especialmente ao meu único e mais fiel leitor, meu caro amigo Laércio.

Sabe bem amigo, que infelizmente acabo censurando-me, continuamente. E sabe bem, que o que peço dos outros não é muito, acho de fato em realidade, que é bem pouco, mas diante das relações sociais das quais nós estamos cercados, torna-se pedir muito.

Infelizmente não somos pobres de espírito o suficiente para aceitarmos a mediocridade, e nem elevados o suficiente, não só de espírito, como materialmente, para podermos transitarmos tranquilamente nos meios pequeno-burgueses da alta cultura, ainda que grande parte desta esteja degenerada, acredito que poderíamos ao menos rir ironicamente como Sócrates, das baboseiras que são ditas como se fossem coisas geniais, que não passam de banalidades repetidas continuamente.


Faço um esforço que pouco poderia dizer em palavras, pela minha aproximação com as pessoas. É claro que isto é algo que não pode-se forçar artificialmente, mas as pessoas estão mesmo resguardadas em si mesmas, receosas, reticentes.


Sabe meu caro, que além de ter de me censurar continuamente, não tenho amigos de longa data, amigos de infância não existem.

Isto dói em minha alma, não pela idealização romântica de amizade, mas por saber dolorosamente como pensando na longa duração de minha curta vida, não tenho ninguém que seja capaz de conviver proximamente comigo, e que ao mesmo tempo possa me compreender.

Consigo verificar como até mesmo virtualmente, sou jogado à indiferença por meus pares e me vejo a margem, mesmo me fazendo presente. Não sou como eles, não faço parte dos que sofrem junto e fazem o discurso do escravo feliz, aquele que sofre a chibatada, mas a única coisa que faz é reclamar do carrasco, mas não do chicote, muito menos da escravidão.

Nós queremos demais, e toda a suposta irrestrição, transgressão e libertariedade nos é bem claramente mentirosa, mas não é à eles.

Isto nos coloca num lugar difícil meu caro. E ninguém está disposto a perder tempo com o outro, muito menos com pessoas como nós. 

O imediatismo do viver, por vezes pior do que o animal, os fazem se preocupar imediatamente com suas "obrigações", ainda que não se saiba mais o que se está pensando e o que se está fazendo.

Esta solidão, vai me corroendo a alma, de maneira semelhante acredito, ao que passava Rousseau nos seus últimos 15 anos de vida.

Sou jovem ainda mas já sinto estas dores da alma e isto verdadeiramente me preocupa, ainda que eu não esteja em condição tão ruim como a de nosso autor romântico, me vejo próximo do abismo, como disse você mesmo, e lembro-me bem, circundando a seta que guia às respostas certas, aos caminhos verdadeiros. Ou como diria um amigo, num hotel à beira do precipício.


Este hotel me é demasiado desconfortável, mas para aqueles que só tem olhos para ver de fora, parece que minha situação é a de um luxo do qual não posso reclamar. Têm olhos para ver, mas não conseguem enxergar. Esta situação do mundo realmente me leva a pensar que está tudo perdido.

Ter escolhido ficar mais três semanas em São Paulo por conta desse trabalho, tem realmente me incomodado. Tem me colocado num estado de quase isolamento social o qual me é pouco fácil de remediar aqui.

Quero voltar à São Carlos, mas sei bem que pareço estar alimentando a mim mesmo, uma vida talvez muito mais deliciosa lá do que cá, por mais uma idealização romântica. Espero ainda estar errado.


Meu compromisso comigo mesmo me leva a um lugar que ninguém aceita em que eu esteja: tenho sempre que me reportar ao passado ou ao futuro, o que fiz e o que farei, para justificar minha suposta falta de compromisso comigo e com as instituições.

É como se eu estivesse mesmo caminhando para o caminho do pária, tendo plena consciência disto. Mas ninguém aceita que alguém que parecia da nobreza, caminhe em direção ao pior dos lugares por vontade própria.

Acho difícil suportar a solidão, deve ter percebido isto há muito antes destas palavras que aqui escrevo.

Escrevi esses dias, algo que conversei contigo e me lembrei nitidamente: não preciso ser nada, e não quero ser nada.

É realmente difícil para mim me circunscrever em termos e categorias que para mim fazem tão pouco sentido: oriente ou ocidente? Não, não quero defender "ser" nenhum. Mas ainda estou no limite entre os dois mundos, coloco ainda as coisas na história e saio da circularidade oriental.

Difícil talvez seja a palavra que mais pensei e repeti nesse texto.

Mas para mim,  é realmente difícil pensar que somente tu me entendes.


Se dou algum crédito ao destino e ao inefável, pois sabe que ateu e materialista ingênuo nunca fui, digo que ainda bem que este destino me quis que tivesse ao menos a tu como amigo.


Tornou-se isto quase uma carta, mas era previsível.

Vou dormir agora, porque infelizmente tenho trabalho cedo. E só de pensar nisso me dá aquele desprazer de estar vivo nesse pouco de tempo antes do sono... não temos mais sequer o direito de dormir o quanto quisermos...

Nos falamos em breve, tenhamos força a viver que as vezes o espírito baixa mesmo... poderíamos chamar de inferno astral por exemplo... quem sabe não é isso, já que sabe que compartilho de tais conhecimentos que se faz dos astros... 

Mas é isto meu caro, se ler isto e puder, me dê uma ligada ou entre na internet que devo levar o notebook para o trabalho e espero poder usá-lo lá.

Abraço, 
Leandro Kenji

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Um pouco de Maio de 1968


Pensando um pouco o maio francês, já que este fenômeno e sua análise é um pouco mais complexa que isso, e demanda abordagens mais profundas e melhor fundamentadas...


(trecho de discussão no facebook)


A prática política mesma de 1968 levou ao descompasso, na medida em que, havendo avanços sociais e diversos ganhos a grupos minoritários, simultaneamente, universalizou o consumidor como objeto final de sujeito para si mesmo, tendendo inclusive à própria abolição do cidadão pré-68...o aperfeiçoamento do capitalismo dito integrado, como coloca Guy Debord em seu Sociedade do Espetáculo, leva a uma forma de dominação ainda mais forte em que o direito à própria lógica do capital também se "democratiza" à grupos antes excluídos socialmente.


Apesar de hoje me parecer que estamos colhendo os frutos da "negatividade" perante os elementos positivos que são colocados com a força da geração de 68, ainda que com práticas políticas confusas, parece surgir no horizonte novas formas de atuação política mais horizontalizadas, diferente das estruturas arcaicas dos partidos. 


O que se vê é que muito desta geração pode desfrutar de uma maior "liberdade formal" dita kantiana, no limite mesmo, liberal, e que em termos de choque direto contra a força do poder dominante passou a ter muito menos a dizer do que à época original das contestações, sendo integrada à ele.


É por isto que hoje um autor como Debord ou até mesmo Baudrillard (apesar deste último ser um pós-estruturalista anti-dialético), vão reconhecer na concentração da imagem, um novo tipo de reificação das relações sociais, em que estas não passam mais a serem mediadas apenas por mercadorias, mas transmutadas para a idéia mesma de imagem.


"4. O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens."


A mera forma identitária da idéia de revolução, já seria então por si mesma, algo ilusória, pois não se trataria mais de pensar estratégias e formas universais de luta contra o capital, mas tão somente uma relação de identidade com o objeto revolução, e isto por si só bastaria, como se esta fosse alheia a um pensar a revolução a partir do próprio espírito do sujeito universal que traz consigo mesmo a necessidade de uma ampliação de si mesmo, e não de algo exterior a este espírito universal, como algo externo ainda que em sua apreciação pareça palpável, torna-se uma relação entre dois objetos, reificados, e não uma relação entre o sujeito individual e o universal.


Não que eu ache bastante válido e considerável o espontaneísmo que pode se insurgir em momentos político-sociais mais conturbados, mas imaginar que ele por si só, vai transformar as relações políticas todas ou fazer a revolução, me parece algo bastante ingênuo... vemos mesmo o que acontece na Inglaterra ou na Espanha... indignação, contestação, luta contra à própria autoridade institucional...estão todas ali mais ou menos explícitas, mas ninguém parece saber muito bem o que se fazer somente com essa disposição para enfrentar o poder instituído... por isso acredito que o rigor teórico é de fato necessário, senão o momento da efetividade do processo de transformação política, me parece ficar também comprometido... e é NESTES TERMOS que eu acho que Adorno estava certo, ao ir contra aos estudantes em 68, na medida em que em vez de termos este pequeno salto "quantitativo" na nossa história de lá para cá, quem sabe o processo de radicalização política fosse ainda maior, e já tivessemos uma derrubada das próprias formas institucionalizadas de poder, e nem estariamos debatendo mais nada deste tipo, mas já na construção de um mundo liberto das amarras do capital e de todas as demais formas de opressão, seja ao homem, mulher, heterossexual, homossexual, negros, índios, etc...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Crítica no mundo contemporâneo

Uma breve atualização, diante desse texto, o qual meu otimismo de estar vivendo tempos realmente acelerados e interessantes me pôs a publicá-lo aqui.


A liberdade vigiada da comunicação em rede
Das primaveras árabes às revoltas inglesas, a Internet primeiro é colocada no paraíso e depois jogada na poeira.
A reportagem é de Benedetto Vecchi, publicada no jornal Il Manifesto, 13-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O primeiro-ministro britânico David Cameron logo as indicou como instrumentousado irresponsavelmente pela "escória" que enlouqueceu nas cidades inglesas, pedindo ajuda àquelas que as produzem para que sejam tomadas as medidas adequadas para regulamentá-las. Assim, em questão de dias, as redes sociais passaram do status de meios maravilhosos da liberdade de expressão a gadgets infernais.
Foi a partir da breve estação das primaveras árabes que as redes sociais foram elevadas ao sétimo céu, para depois serem jogadas na poeira. Incensadas quando usadas para caçar um tirano, hostilizadas quando transformadas em canal comunicativo por quem coloca em discussão a ordem social nas democracias liberais.
Se a comunicação online prossegue sem pôr em perigo as relações de poder, e sociais, ela não constitui uma ameaça. Se, no entanto, tem como objeto a crítica à ordem existente, ela representa uma fonte de perigo que deve ser desativada, talvez as ocultando, como propõe David Cameron.
Mais interessante, ao contrário, é a relação que se dá entre as redes sociais e o que ocorre fora da tela. Sobre esse ponto, tanto teórico quanto político, a discussão na rede jamais cessou, desde que começaram a ser colocados no centro da atenção o seu uso sempre mais frequente por parte dos movimentos sociais para comunicar e, às vezes, para organizar as suas ações.
Os estudos de caso já são tantos que, por exemplo, as primaveras árabes são muitas vezes qualificadas como Twitter Revolution ou Facebook Revolution.
Sem dúvida, nessas ocasiões, as redes sociais foram usadas por quem ocupava aPraça Tahir, ou por quem, em Túnis, ocupava as praças, obrigando assim Ben Ali a abandonar o país. No entanto, as redes sociais não são tecnologias neutras. De fato,TwitterFacebookGoogle são empresas, enquanto a rede é um sistema de máquinas imanente à produção de mercadorias. Isto é, não são "zonas temporariamente autônomas", mas sim o contexto em que se desvenda o regime de acumulação capitalista. Facebook, Google, Twitter são empresas assim como General MotorsCoca-ColaNike. As diferenças entre elas se referem às mercadorias produzidas e o que é comumente chamado de "modelo de negócio".
Nas redes sociais, a comunicação é a matéria-prima, além do produto acabado. Essa é a especificidade que constitui uma verdadeira dor de cabeça. Em primeiro lugar, as redes sociais devem incentivar e facilitar o seu uso. Para fazer isso, investem centenas e centenas de milhões de dólares, ou euros, para torná-las mais atraentes, simples de usar.
Ao mesmo tempo, disponibilizam serviços gratuitamente, para que os usuários se tornem sempre mais fiéis, a tal ponto de que se conectem à rede somente e apenas por meio de uma rede social. Mas a lealdade tem um preço a ser pago pelas empresas: uma relativa liberdade de expressão e dispositivos de controle bastante "tímidos", mesmo que, recentemente, foram denunciadas censuras por parte de algumas redes sociais – principalmente o Facebook – sobre os conteúdos considerados não ortodoxos.
Para garantir tudo isso, as empresas devem fornecer banda larga, softwares adequados, agregadores de notícias. O termo técnico para indicar tudo isso é cloud computing [computação em nuvem], o horizonte em que se adensam as estratégias empresariais e as estratégias dos movimentos sociais que buscam condicionar o fluxo das informações, derramando nas redes sociais os seus conteúdos "rebeldes".
Por esses motivos, é uma aposta teórica definir as redes sociais como exemplo de liberdade absoluta. Mais simplesmente, no uso do FacebookTwitterGoogle eYahoo!, sem omitir a Microsoft, está presente tanto um exercício da liberdade de expressão, quanto também a sua recondução a estratégias específicas de transformação desses conteúdos em mercadoria, e conteúdo inovador cedido gratuitamente às empresas, que se apropriam desse trabalho gratuito desenvolvido pela cooperação social presente online.
É essa ambivalência que muitos governos gostariam de desfazer e normalizar. Nem sempre conseguem, porque encontram as resistências dos usuários das redes sociais, com ciúmes da liberdade de expressão e dos conteúdos produzidos na rede, que também defendem contra as tentativas de transformá-la, justamente, em propriedade das empresas. Esse é o conflito mais radical que ocorre na rede, junto com a contra o conflito contra o regime da propriedade intelectual. A liberdade operante na rede é, portanto, uma liberdade vigiada.
Nas últimas semanas, em algumas listas de discussão históricas da rede, houve quem evidenciasse que a Internet tende a restituir uma representação falsa e "domesticada" da realidade social. Aqui o equívoco é máximo. As redes sociais podem ser consideradas um espelhamento elaborado da realidade, não a sua projeção virtual. É essa elaboração que faz das redes sociais um poderoso dispositivo de codificação das relações de força e sociais presentes fora da tela.
Não é útil, portanto, falar de verdade quando se fala da rede, mas sim identificar os mecanismos, as lógicas que se relacionam com essa elaboração da realidade que ocorre nas redes sociais. Mas, nesse caso, o discurso se desloca para o significado de hegemonia, consenso e ponto de vista. Porque o que acontece fora da tela sofre os condicionamentos do que acontece nas redes sociais. Isto é, são momentos diferentes de um mesmo movimento: o que vê um conflito para estabelecer a hegemonia cultural dentro das sociedades.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=46398


"Para alguns, a Filosofia aparece como um meio homogêneo: os pensamentos nascem e morrem nele, os sistemas nele se edificam para nele desmoronar. Outros consideram-na como uma certa atitude cuja adoçao estaria sempre ao alcance de nossa liberdade. Ainda para outros, é vista como determinado setor da cultura. Em nossa opinião, a Filosofia não existe; sob qualquer forma que seja considerada, essa sombra da ciência, essa eminência parada da humanidade não passa de uma abstração hipostasiada. De fato, existem várias filosofias. Ou melhor - porque nunca encontrareis, em determinado momento mais do que uma que seja viva -, em certas circunstâncias bem definidas, uma filosofia se constitui para dar expressão ao movimento geral da sociedade; e, enquanto vive, é ela que serve de meio cultural aos contemporâneos. Esse objeto desconcertante apresenta-se, simultaneamente sob aspectos profundamente distintos, cuja unificação opera constantemente." - Jean-Paul Sartre



David Cameron fala exatamente do que nós que pensamos a esquerda queremos. O que é necessário é justamente isso, a crítica lúcida e racional da ordem existente!!


Como diz o Safatle, vivemos mesmo em tempos acelerados, e a água começa a bater na bunda dos detentores do poder-sobre, pela força dos que podem-fazer!!


Sonho e espero estar vivo com a possibilidade de ver a História com H maiúsculo sendo realizada, quem sabe uma Revolução Francesa parte 2. Como diria Hegel à época da invasão de Napoleão à sua pacata cidade...o espírito do mundo à cavalo!!



Não pensei muito para fazer esta postagem, como o título se propõe algo mais largo que estes meros comentários otimistas de ocasião, me proponho a escrever sobre isto mais tarde. Digo apenas que irei dormir momentaneamente feliz naquele pensamento de felicidade que Epicuro coloca, ao pensar que estou tendo também as próprias condições históricas propícias àquilo que faz bem à alma.

domingo, 14 de agosto de 2011

Existência, produtividade e moral

Mais do que nunca, pensa-se hoje em termos de produtividade, quando muito, no máximo, em termos do dito desenvolvimento sustentável, que em realidade, nós que pensamos a esquerda pelo viés do marxismo e toda a sua carga teórica, sabemos muito bem que trata-se de uma falácia, um joguete de palavras bonito que coloca a possibilidade de uma sustentabilidade dentro do capital, o que bem sabemos, é impossível já que vende-se até créditos de carbono...


Mas minha idéia inicial para este post não era essa, e sim as questões cotidianas nas quais a questão da "emergência da produtividade" aparece em todos os momentos, por todos os lugares.


Em meu contexto, de estudante universitário de uma universidade pública, a questão da produtividade, aparece desdobrada na noção de produtividade acadêmica.


Lembro-me aqui falando neste assunto em particular, da entrevista de uma de nossas filosofas mais conhecidas no Brasil, ao Roda Viva, em tempos sem Marília Gabriela, por favor. Estou falando de Marilena Chauí, apesar de todas as ressalvas que se possa fazer a ela, inclusive as que eu mesmo possuo, sendo a maior delas sem dúvida, a sua entrega ao petismo desavergonhado.


Mas o que Marilena Chauí coloca de forma vigorosa, em meio a uma pergunta do pouco esclarecido e reacionário jornalista Reinaldo Azevedo (que se diz ex-trotskista, mas que nem de Marx o cara entendeu com certeza), além da questão clara da problemática da "concessão" da universidade que no final das contas seria em seu entender engolida pela esfera do privado, fala com muita propriedade da própria idéia fundamental de universidade, do que ela produz e qual poderia e deveria ser.


Marilena diz:


"De alguma maneira essa idéia da universidade de resultados, dessa universidade operacional, eficaz, rápida, que treina e que desfaz a própria idéia de formação e de pesquisa... de alguma maneira, ela se tornou uma idéia hegemônica, você conversa com os universitários e eles consideram que é assim.


[...]


Então, eu diria que a filosofia tem um papel dentro da política universitária, que é de lembrar, primeiro: a universidade que se propõe hoje não precisa ser assim e não deve ser assim, e que há alternativas. A filosofia pode repor a idéia de formação (em alemão Bildung, nota minha), no sentido amplo da formação cultural, e ela pode recolocar o sentido profundo da noção de pesquisa. Ao invés da pesquisa ser entendida como achar uma resposta pontual a um problema pontual, é repor a idéia da pesquisa como uma investigação e uma interrogação que abrange toda uma experiência contemporânea.


[...]


Eu diria que se trata, em primeiro lugar, de pensar-se o modo de inserção da universidade ditado pela idéia neoliberal. O que é a idéia neoliberal? Na idéia neoliberal, a política é a economia, a economia é a finança, a finança é o mercado e o mercado é um jogo. É isso. Agora, se você insere a universidade nesse contexto, você insere a universidade, portanto, no mercado e no jogo. Eu penso que a primeira tarefa que nós temos, em termos de política universitária, é refutar que o que se faz na universidade tenha que ser determinado pelas exigências e necessidades do mercado. Porque essa é a quebra da racionalidade da universidade."


(http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/61/entrevistados/marilena_chaui_1999.htm - havia também a entrevista completa no youtube, infelizmente por motivo que desconheço, ela foi apagada, não sei se pelo usuário ou por outrem, de qualquer forma há a íntegra no próprio site do rodaviva no link acima.)


Como Marilena disse em palavras que melhores eu não poderia colocar, a lógica de mercado imposta sobre a universidade (que é claro é uma prática já universal em seus diversos níveis nos limites especialmente de cada estado-nação), já é algo hegemônico não só no Brasil como no mundo.


De fato, isto por si só, já quebra com o próprio conceito de universidade, que, como o próprio nome já diz, deveria preocupar-se não apenas com questões pontuais e na formação de especialistas, mas sim em tratar ali dentro de questões universais do conhecimento humano. Kant tem algo a dizer sobre a marcha rumo às especializações.


Mas vamos voltar à questão que é posta no próprio título. Do que falamos aqui afinal de contas, senão da própria existência humana, ser hoje não só pautada, mas colocada em juízo a partir da função produtiva do indivíduo na sociedade?


Em nosso tempo, da efetiva dominação de classe burguesa datada pelo menos de 163 anos (1848, primavera dos povos), em que já passados 49 anos do fim da Revolução Francesa, que cortou cabeças da aristocracia francesa, e universalizou a força política da nossa classe dominante, apesar de idas e vindas da reação, o trabalho é a palavra de ordem e redenção de tudo.


Como sempre, colocando necessariamente as coisas na História: usualmente, os valores apregoados numa época, a ideologia dominante de uma época, é a ideologia da classe dominante. Por quanto é claro, a ideologia no sentido marxiano da palavra (falsa consciência - recomendo texto de Paulo Arantes - Sobre o conceito de ideologia, google e já achou), é a ideologia do esforço, da meritocracia, enfim, da legitimação da própria existência moral através do trabalho.

Falarei o óbvio aqui, àqueles que tem um relativo domínio no que se refere à História e à Teoria da História: nunca na história da humanidade, o trabalho foi valorizado, e sim o ócio, pois, a sociedade aristocrática, de privilégio para os aristóis (os melhores), os melhores e maiores guerreiros, tinha como maior valor qual? A honra.

Vemos aqui inclusive, de certa perspectiva, a degeneração moral que a burguesia trás consigo, pois esta coloca no centro de seus valores: o lucro e o trabalho.



Não falamos aqui apenas do trabalho criativo, do trabalho intelectual, artístico, de contribuição à humanidade, mas sim de todo e qualquer trabalho, como uma valorização do humano e de uma fundamentação moral de sua existência pautada nos mais degradantes trabalhos possíveis para qualquer indivíduo, como trabalhar em perigosas indústrias carvoeiras ou no agronegócio como cortador de cana. 


Sendo mais barato pagar valor irrisório ao homem que somente tem a vender sua força de trabalho, a mecanização da produção, que deveria ser a redenção da humanidade para o fim do trabalho alienado, não termina, devido não só à necessidade do capitalismo necessitar desempregados, como outros elementos que fatalmente veremos aqui neste blog, em outras oportunidades.


Voltando ao ponto central que visei abordar nesse texto, vê-se como hoje, em nosso tempo ainda dito pós-moderno, diz-se que você é digno de existir somente se é um indivíduo produtivo.


Meu total repúdio como ser moral, que todos somos, à idéia de que pode-se julgar um indivíduo por sua posição na produção e sua atividade produtiva presente.


Para colocar algo de biográfico aqui, pois subjacente, sempre há, me dói saber ser julgado não como ser humano, mas como indivíduo "que contribui ou não" por estar sendo produtivo neste momento ou não.


E como sempre digo, quando se tira algo da História, tudo se perde, e os indivíduos em sua história, também dela não podem ser separados, pois senão cria-se o indivíduo abstrato que mostra-se plasmado no presente contínuo. Presente esse, sempre mentiroso, perante a História. A minha é somente mais uma dentro tantas outras...
Nada me irrita mais do que pessoas que julgam excessivamente, e compreendem de menos. Especialmente é claro, quando sou julgado e pior, ousam saber de mim, mais do que a mim mesmo.

Cada um sabe de suas angústias, e eu não ouso jamais ferir ninguém com este tipo de julgamento arbitrário.



Novamente falta Spinoza para essas pessoas:


"Tenho me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las."



"Quem vive dirigido pela razão, se esforça, tanto quanto pode, por compensar pelo amor e pela generosidade, o ódio recíproco."


"As coisas nos parecem absurdas ou más porque delas temos um conhecimento parcial, e somos completamente ignorantes quanto à ordem e à coerência da natureza como um todo."


Baruch Spinoza

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"O verdadeiro é o delírio báquico do espírito no qual nenhum membro deixa de estar embriagado." - Georg Wilhelm Friedrich Hegel


Vou ler Os Devaneios do Caminhante Solitário de Rousseau, e logo menos acho que comento algo aqui... é um texto verdadeiramente belo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Eu e esse blog...


Não é a primeira vez que tenho um blog. A primeira delas, já há bastante tempo, acredito que se iniciou em 2002, quando ainda estava no terceiro ano no colegial (sim e eu falo colegial). Ali tratava-se de um blog estritamente pessoal, com minhas angústias e muitas bobagens de internet numa fase ainda mais infantil e menos questionadora da ordem do mundo.


Em 2008 criei outro blog, no auge da minha radicalidade política, ainda que fosse pautada num entendimento precário não só de bases teóricas mas da própria vida. A subjetividade era minguada, como o mundo força-nos que seja. Indivíduos estereotipados que pensam estar fora da massa, mas em realidade meramente estão dominados de outra forma, espetacularizando-se em suas relações sociais.


Ainda não sei exatamente qual será o formato desse blog. Pretendo postar aqui muito dos meus pensamentos e devaneios, insights e idéias que surgem nos mais diversos momentos.


Mas não pretendo transformar esse blog apenas numa página autoral, mas sim também postar textos e artigos de pensadores já na história e de nossos tempos para quando possível, fazermos juntos uma reflexão a partir deles.


Delírios, sentimentos, cinema, política, sociedade, história, filosofia e psicanálise serão recorrentes aqui.


Tentarei me censurar o menos possível, inclusive na minha vida pessoal, pois concordo com o que diz Sartre:


"Para mim, o que vicia as relações entre as pessoas é que cada um conserva, na relação com o outro, alguma coisa de oculto, de secreto. Penso que a transparência deve sempre substituir o segredo. E penso muito no dia em que duas pessoas não terão mais segredos entre si porque não mais os terão para ninguém, porque a vida subjetiva, assim como a objetiva, estará totalmente aberta." – Jean-Paul Sartre


Sou um crítico implacável e quase nunca deixo de analisar o comportamento, pensamento e as nuances por trás do que as pessoas fazem e dizem. Gosto de entender as pessoas.


Minha crítica não deve ser confundida com ódio, pois não considero que a vida em sociedade se trata da sobrevivência do mais forte, do caos, ou de qualquer teoria pautada na incapacidade do ser humano de se relacionar consigo mesmo e com o outro.


Uma coisa que não faltará aqui será a relação da minha vida pessoal e do espírito do mundo com a História. Sem ela, tudo se perde.


Despeço-me aqui neste primeiro post com uma situação de Spinoza que me tem sido recorrente nos últimos dias:


"Tenho me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las." - Baruch Spinoza


E que venham muitos posts nessa nova fase!