terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Crítica no mundo contemporâneo

Uma breve atualização, diante desse texto, o qual meu otimismo de estar vivendo tempos realmente acelerados e interessantes me pôs a publicá-lo aqui.


A liberdade vigiada da comunicação em rede
Das primaveras árabes às revoltas inglesas, a Internet primeiro é colocada no paraíso e depois jogada na poeira.
A reportagem é de Benedetto Vecchi, publicada no jornal Il Manifesto, 13-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O primeiro-ministro britânico David Cameron logo as indicou como instrumentousado irresponsavelmente pela "escória" que enlouqueceu nas cidades inglesas, pedindo ajuda àquelas que as produzem para que sejam tomadas as medidas adequadas para regulamentá-las. Assim, em questão de dias, as redes sociais passaram do status de meios maravilhosos da liberdade de expressão a gadgets infernais.
Foi a partir da breve estação das primaveras árabes que as redes sociais foram elevadas ao sétimo céu, para depois serem jogadas na poeira. Incensadas quando usadas para caçar um tirano, hostilizadas quando transformadas em canal comunicativo por quem coloca em discussão a ordem social nas democracias liberais.
Se a comunicação online prossegue sem pôr em perigo as relações de poder, e sociais, ela não constitui uma ameaça. Se, no entanto, tem como objeto a crítica à ordem existente, ela representa uma fonte de perigo que deve ser desativada, talvez as ocultando, como propõe David Cameron.
Mais interessante, ao contrário, é a relação que se dá entre as redes sociais e o que ocorre fora da tela. Sobre esse ponto, tanto teórico quanto político, a discussão na rede jamais cessou, desde que começaram a ser colocados no centro da atenção o seu uso sempre mais frequente por parte dos movimentos sociais para comunicar e, às vezes, para organizar as suas ações.
Os estudos de caso já são tantos que, por exemplo, as primaveras árabes são muitas vezes qualificadas como Twitter Revolution ou Facebook Revolution.
Sem dúvida, nessas ocasiões, as redes sociais foram usadas por quem ocupava aPraça Tahir, ou por quem, em Túnis, ocupava as praças, obrigando assim Ben Ali a abandonar o país. No entanto, as redes sociais não são tecnologias neutras. De fato,TwitterFacebookGoogle são empresas, enquanto a rede é um sistema de máquinas imanente à produção de mercadorias. Isto é, não são "zonas temporariamente autônomas", mas sim o contexto em que se desvenda o regime de acumulação capitalista. Facebook, Google, Twitter são empresas assim como General MotorsCoca-ColaNike. As diferenças entre elas se referem às mercadorias produzidas e o que é comumente chamado de "modelo de negócio".
Nas redes sociais, a comunicação é a matéria-prima, além do produto acabado. Essa é a especificidade que constitui uma verdadeira dor de cabeça. Em primeiro lugar, as redes sociais devem incentivar e facilitar o seu uso. Para fazer isso, investem centenas e centenas de milhões de dólares, ou euros, para torná-las mais atraentes, simples de usar.
Ao mesmo tempo, disponibilizam serviços gratuitamente, para que os usuários se tornem sempre mais fiéis, a tal ponto de que se conectem à rede somente e apenas por meio de uma rede social. Mas a lealdade tem um preço a ser pago pelas empresas: uma relativa liberdade de expressão e dispositivos de controle bastante "tímidos", mesmo que, recentemente, foram denunciadas censuras por parte de algumas redes sociais – principalmente o Facebook – sobre os conteúdos considerados não ortodoxos.
Para garantir tudo isso, as empresas devem fornecer banda larga, softwares adequados, agregadores de notícias. O termo técnico para indicar tudo isso é cloud computing [computação em nuvem], o horizonte em que se adensam as estratégias empresariais e as estratégias dos movimentos sociais que buscam condicionar o fluxo das informações, derramando nas redes sociais os seus conteúdos "rebeldes".
Por esses motivos, é uma aposta teórica definir as redes sociais como exemplo de liberdade absoluta. Mais simplesmente, no uso do FacebookTwitterGoogle eYahoo!, sem omitir a Microsoft, está presente tanto um exercício da liberdade de expressão, quanto também a sua recondução a estratégias específicas de transformação desses conteúdos em mercadoria, e conteúdo inovador cedido gratuitamente às empresas, que se apropriam desse trabalho gratuito desenvolvido pela cooperação social presente online.
É essa ambivalência que muitos governos gostariam de desfazer e normalizar. Nem sempre conseguem, porque encontram as resistências dos usuários das redes sociais, com ciúmes da liberdade de expressão e dos conteúdos produzidos na rede, que também defendem contra as tentativas de transformá-la, justamente, em propriedade das empresas. Esse é o conflito mais radical que ocorre na rede, junto com a contra o conflito contra o regime da propriedade intelectual. A liberdade operante na rede é, portanto, uma liberdade vigiada.
Nas últimas semanas, em algumas listas de discussão históricas da rede, houve quem evidenciasse que a Internet tende a restituir uma representação falsa e "domesticada" da realidade social. Aqui o equívoco é máximo. As redes sociais podem ser consideradas um espelhamento elaborado da realidade, não a sua projeção virtual. É essa elaboração que faz das redes sociais um poderoso dispositivo de codificação das relações de força e sociais presentes fora da tela.
Não é útil, portanto, falar de verdade quando se fala da rede, mas sim identificar os mecanismos, as lógicas que se relacionam com essa elaboração da realidade que ocorre nas redes sociais. Mas, nesse caso, o discurso se desloca para o significado de hegemonia, consenso e ponto de vista. Porque o que acontece fora da tela sofre os condicionamentos do que acontece nas redes sociais. Isto é, são momentos diferentes de um mesmo movimento: o que vê um conflito para estabelecer a hegemonia cultural dentro das sociedades.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=46398


"Para alguns, a Filosofia aparece como um meio homogêneo: os pensamentos nascem e morrem nele, os sistemas nele se edificam para nele desmoronar. Outros consideram-na como uma certa atitude cuja adoçao estaria sempre ao alcance de nossa liberdade. Ainda para outros, é vista como determinado setor da cultura. Em nossa opinião, a Filosofia não existe; sob qualquer forma que seja considerada, essa sombra da ciência, essa eminência parada da humanidade não passa de uma abstração hipostasiada. De fato, existem várias filosofias. Ou melhor - porque nunca encontrareis, em determinado momento mais do que uma que seja viva -, em certas circunstâncias bem definidas, uma filosofia se constitui para dar expressão ao movimento geral da sociedade; e, enquanto vive, é ela que serve de meio cultural aos contemporâneos. Esse objeto desconcertante apresenta-se, simultaneamente sob aspectos profundamente distintos, cuja unificação opera constantemente." - Jean-Paul Sartre



David Cameron fala exatamente do que nós que pensamos a esquerda queremos. O que é necessário é justamente isso, a crítica lúcida e racional da ordem existente!!


Como diz o Safatle, vivemos mesmo em tempos acelerados, e a água começa a bater na bunda dos detentores do poder-sobre, pela força dos que podem-fazer!!


Sonho e espero estar vivo com a possibilidade de ver a História com H maiúsculo sendo realizada, quem sabe uma Revolução Francesa parte 2. Como diria Hegel à época da invasão de Napoleão à sua pacata cidade...o espírito do mundo à cavalo!!



Não pensei muito para fazer esta postagem, como o título se propõe algo mais largo que estes meros comentários otimistas de ocasião, me proponho a escrever sobre isto mais tarde. Digo apenas que irei dormir momentaneamente feliz naquele pensamento de felicidade que Epicuro coloca, ao pensar que estou tendo também as próprias condições históricas propícias àquilo que faz bem à alma.

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