domingo, 14 de agosto de 2011

Existência, produtividade e moral

Mais do que nunca, pensa-se hoje em termos de produtividade, quando muito, no máximo, em termos do dito desenvolvimento sustentável, que em realidade, nós que pensamos a esquerda pelo viés do marxismo e toda a sua carga teórica, sabemos muito bem que trata-se de uma falácia, um joguete de palavras bonito que coloca a possibilidade de uma sustentabilidade dentro do capital, o que bem sabemos, é impossível já que vende-se até créditos de carbono...


Mas minha idéia inicial para este post não era essa, e sim as questões cotidianas nas quais a questão da "emergência da produtividade" aparece em todos os momentos, por todos os lugares.


Em meu contexto, de estudante universitário de uma universidade pública, a questão da produtividade, aparece desdobrada na noção de produtividade acadêmica.


Lembro-me aqui falando neste assunto em particular, da entrevista de uma de nossas filosofas mais conhecidas no Brasil, ao Roda Viva, em tempos sem Marília Gabriela, por favor. Estou falando de Marilena Chauí, apesar de todas as ressalvas que se possa fazer a ela, inclusive as que eu mesmo possuo, sendo a maior delas sem dúvida, a sua entrega ao petismo desavergonhado.


Mas o que Marilena Chauí coloca de forma vigorosa, em meio a uma pergunta do pouco esclarecido e reacionário jornalista Reinaldo Azevedo (que se diz ex-trotskista, mas que nem de Marx o cara entendeu com certeza), além da questão clara da problemática da "concessão" da universidade que no final das contas seria em seu entender engolida pela esfera do privado, fala com muita propriedade da própria idéia fundamental de universidade, do que ela produz e qual poderia e deveria ser.


Marilena diz:


"De alguma maneira essa idéia da universidade de resultados, dessa universidade operacional, eficaz, rápida, que treina e que desfaz a própria idéia de formação e de pesquisa... de alguma maneira, ela se tornou uma idéia hegemônica, você conversa com os universitários e eles consideram que é assim.


[...]


Então, eu diria que a filosofia tem um papel dentro da política universitária, que é de lembrar, primeiro: a universidade que se propõe hoje não precisa ser assim e não deve ser assim, e que há alternativas. A filosofia pode repor a idéia de formação (em alemão Bildung, nota minha), no sentido amplo da formação cultural, e ela pode recolocar o sentido profundo da noção de pesquisa. Ao invés da pesquisa ser entendida como achar uma resposta pontual a um problema pontual, é repor a idéia da pesquisa como uma investigação e uma interrogação que abrange toda uma experiência contemporânea.


[...]


Eu diria que se trata, em primeiro lugar, de pensar-se o modo de inserção da universidade ditado pela idéia neoliberal. O que é a idéia neoliberal? Na idéia neoliberal, a política é a economia, a economia é a finança, a finança é o mercado e o mercado é um jogo. É isso. Agora, se você insere a universidade nesse contexto, você insere a universidade, portanto, no mercado e no jogo. Eu penso que a primeira tarefa que nós temos, em termos de política universitária, é refutar que o que se faz na universidade tenha que ser determinado pelas exigências e necessidades do mercado. Porque essa é a quebra da racionalidade da universidade."


(http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/61/entrevistados/marilena_chaui_1999.htm - havia também a entrevista completa no youtube, infelizmente por motivo que desconheço, ela foi apagada, não sei se pelo usuário ou por outrem, de qualquer forma há a íntegra no próprio site do rodaviva no link acima.)


Como Marilena disse em palavras que melhores eu não poderia colocar, a lógica de mercado imposta sobre a universidade (que é claro é uma prática já universal em seus diversos níveis nos limites especialmente de cada estado-nação), já é algo hegemônico não só no Brasil como no mundo.


De fato, isto por si só, já quebra com o próprio conceito de universidade, que, como o próprio nome já diz, deveria preocupar-se não apenas com questões pontuais e na formação de especialistas, mas sim em tratar ali dentro de questões universais do conhecimento humano. Kant tem algo a dizer sobre a marcha rumo às especializações.


Mas vamos voltar à questão que é posta no próprio título. Do que falamos aqui afinal de contas, senão da própria existência humana, ser hoje não só pautada, mas colocada em juízo a partir da função produtiva do indivíduo na sociedade?


Em nosso tempo, da efetiva dominação de classe burguesa datada pelo menos de 163 anos (1848, primavera dos povos), em que já passados 49 anos do fim da Revolução Francesa, que cortou cabeças da aristocracia francesa, e universalizou a força política da nossa classe dominante, apesar de idas e vindas da reação, o trabalho é a palavra de ordem e redenção de tudo.


Como sempre, colocando necessariamente as coisas na História: usualmente, os valores apregoados numa época, a ideologia dominante de uma época, é a ideologia da classe dominante. Por quanto é claro, a ideologia no sentido marxiano da palavra (falsa consciência - recomendo texto de Paulo Arantes - Sobre o conceito de ideologia, google e já achou), é a ideologia do esforço, da meritocracia, enfim, da legitimação da própria existência moral através do trabalho.

Falarei o óbvio aqui, àqueles que tem um relativo domínio no que se refere à História e à Teoria da História: nunca na história da humanidade, o trabalho foi valorizado, e sim o ócio, pois, a sociedade aristocrática, de privilégio para os aristóis (os melhores), os melhores e maiores guerreiros, tinha como maior valor qual? A honra.

Vemos aqui inclusive, de certa perspectiva, a degeneração moral que a burguesia trás consigo, pois esta coloca no centro de seus valores: o lucro e o trabalho.



Não falamos aqui apenas do trabalho criativo, do trabalho intelectual, artístico, de contribuição à humanidade, mas sim de todo e qualquer trabalho, como uma valorização do humano e de uma fundamentação moral de sua existência pautada nos mais degradantes trabalhos possíveis para qualquer indivíduo, como trabalhar em perigosas indústrias carvoeiras ou no agronegócio como cortador de cana. 


Sendo mais barato pagar valor irrisório ao homem que somente tem a vender sua força de trabalho, a mecanização da produção, que deveria ser a redenção da humanidade para o fim do trabalho alienado, não termina, devido não só à necessidade do capitalismo necessitar desempregados, como outros elementos que fatalmente veremos aqui neste blog, em outras oportunidades.


Voltando ao ponto central que visei abordar nesse texto, vê-se como hoje, em nosso tempo ainda dito pós-moderno, diz-se que você é digno de existir somente se é um indivíduo produtivo.


Meu total repúdio como ser moral, que todos somos, à idéia de que pode-se julgar um indivíduo por sua posição na produção e sua atividade produtiva presente.


Para colocar algo de biográfico aqui, pois subjacente, sempre há, me dói saber ser julgado não como ser humano, mas como indivíduo "que contribui ou não" por estar sendo produtivo neste momento ou não.


E como sempre digo, quando se tira algo da História, tudo se perde, e os indivíduos em sua história, também dela não podem ser separados, pois senão cria-se o indivíduo abstrato que mostra-se plasmado no presente contínuo. Presente esse, sempre mentiroso, perante a História. A minha é somente mais uma dentro tantas outras...

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