terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tragédia da Alma Romântica

Minha combinação trágica: canceriano com ascendente em escorpião (elemento água + água, excessivamente sensível, pro bem e pro mal), família conservadora e hierárquica, pai autoritário, bullying forte na infância, alta restrição economico-meritocrática pela família, demissão do emprego na multinacional, uma certa dose de romantismo incurável e por fim não aceitação de submissão do meu ser e da minha liberdade às instituições.


Já é dia e ainda não dormi, por isso vai ficar curto mesmo.

Mas aqui, não é local para restringir-me e censurar-me. Ao menos fazer isso o menos possível.

Então digo claramente: hoje, como me é constante e mais comum, a pulsão de morte predomina, e então digo que seria até bom estar morto amanhã pela manhã.

No máximo, sou indiferente a mim mesmo e minha existência. Ela pouco me importa, já que meu ser foi estilhaçado desde cedo e até hoje reuno as partes, apesar de já ter consertado considerável parte.


E digo como sempre: defendo a liberdade, não a vida.

E se é covardia não defender a vida, nessa oposição binária que me autorizo aqui a fazer, que me julguem covarde, mas nunca um hipócrita.


Acredito que, a vida me impôs desde cedo, esta necessidade do esforço por racionalizar tudo, diante de tanta corrupção e injustiça, até mesmo dentro do âmbito familiar, já que nunca fui compreendido, protegido nos momentos errados e criticado quando não deveria. Faltou negatividade no pensamento. Mas pensar em termos de dialética na criação de uma criança, soa absurdo para quem não estuda filosofia.


Mas, o que poderia fazer? Mais uma vez é a ignorância em ação, já que esta, se constitui não abstratamente nos indivíduos isolados, mas é construída socialmente. Se tenho capacidade cognitiva para dizer o que digo, não é a toa, e infelizmente não é a toa que meus pais não a tiveram.


[...] 


A dor que carrego em minha alma e que é rememorada por aqueles que menos deveriam, me é mais visceral que a dor de um desconhecido que nada sabe de mim e que não me julga, ou que sei bem que julga precipitadamente.


A ignorância está por todos os lugares e não vou poupar ninguém pois só eu sei o que me retoma feridas profundas.

A falta de tato, de sensibilidade, da forma de lidar com as coisas, leva a erros irreparáveis.


[...]


Sei bem que, esta situação, durará no máximo por mais alguns dias. Mas me é tão desconfortável, angustiante, pontiaguda, que preferia não estar vivo amanhã de manhã.


Também penso nessas horas, na morte do outro, como se fosse isto que adiantaria qualquer coisa.

Veja só, minha lógica é mesmo a da bomba atômica. Desde a mais tenra infância: tudo ou nada. Vida ou morte. Elevação do espírito ou aniquilamento. A glória máxima ou a derrota total. A vida medíocre nunca foi aceitável ou tolerável para mim, por isso também digo, nunca defendi sobrevivências. 


[...]


É claro, quem não tem o que comer, não pode optar pela morte. Simplesmente morre.


Eu posso optar pela morte. Todos aqui podemos. 


[...]


Nunca passei fome. Mas há algo de perverso à alma daqueles que passam por tal estado de degradação humana: são quase sempre, condenados a acreditar em deuses, e impelidos pelo medo, não podem morrer por vontade própria.


Minha perturbação, que é da alma, é daquele que tem discernimento suficiente para  não se ludibriar pelas próprias criações humanas.

Minha fraqueza, ou força em não tê-lo feito, deve residir no próprio âmago da idéia de romântico: há um fundamento, não só subjetivo, mas universal, de se lutar pela vida, ainda que tudo pareça escapismo, reside ali, uma última mas concentrada força de querer viver.


[...]
 

O que me vêm a mente em minha subjetividade, é que talvez por isso, Virginia Woolf se suicidou, com poucos ou quase ninguém a entender suas dores.


E não me importa que me digam que não foi isto.

Em minha subjetividade, me basta. Não desaprovo o suicídio, como bom romântico. Só como racionalista-romântico. 



"Nada é mais terrível de se ver do que a ignorância em ação." - Johann Wolfgang von Goethe




Obs: Aos que quiserem, comente no próprio blog. Seria legal e importante para mim. Inclusive você Laércio, se estiver lendo isto aqui. 

4 comentários:

  1. Argélico,

    Às vezes a autocensura cumpre com uma função muito importante: o estímulo. Não é complicado. Respeitadas as devidas proporções, sei bem o que significa estar imerso na própria subjetividade. A experiência que tive nos últimos 16 meses, entretanto, servir-me-á para sempre: quando um semi-pseudo-intelectual de classe média, como nós, não encontra mais saída para as projeções românticas que fizera do mundo e, por isso, para suas frustrações, as saídas são poucas. Geralmente prevalece a ânsia do compartilhamento da alma, real ou fantástico, com outra pessoa. Receio dizer que no mais das vezes é fantástico, e, por isso, logo cai por terra. Com todas as esperanças depositadas na fantasia de um amor que, a despeito da nossa necessidade mais urgente, logo se desfaz, nossa subjetividade parece desmoronar na mesma medida. Vira pó, compactuando ainda com nossa vontade de viver, que possivelmente já era previamente em algum grau escassa – ao menos até o encontro com aquela pequena luz que havia virado o sol e que, depois, virou a escuridão absoluta. Assim, absorto na própria lama que criou para si, na ânsia de uma razão de viver, o semi-pseudo-intelectual-revolucionário precisa de um tempo pra levar a vida adiante, mesmo com a forte e absoluta vontade de não-existir – ou, melhor, simultaneamente com vontade de suspender a existência, sem deixar de existir, ao cometer um suicídio que deixe perplexas as pessoas mais descrentes em seu potencial suicida e, talvez, o que é pior, no seu potencial em vida. Aí entra o misto de força e vontade de continuar vivo, pois, afinal, não acreditamos em seres fantasiosos – será? –, e então prezamos pela nossa existência, ao menos futura. A esperança não morre, tanto mais porque ela pode adquirir diferentes feições e qualidades. Assim, depois de passados os piores momentos agarrados nessa esperança transfigurada e, geralmente, rancorosa, a autocensura cumpre com o papel de nos fazer crer que isso tudo teve um sentido – como de fato o teve, caso contrário eu não estaria aqui fazendo esse relato com máscara de ciência – e nos traz alguma fagulha de superação ao censurarmos alguns pensamentos e ações que não fazem mais muito sentido (romantizados e sem timing, pra dizer o mínimo). A despeito de seu caráter inicial de autoengano, esse pensamento de superação ajuda a fazer com que, depois de algum tempo, a vida realmente ande. E anda mesmo, começando a passos de tartaruga. Isso caminha juntamente com outros fatores não tão importantes e nos leva a sair da imersão sufocante na própria subjetividade, que é um mal muito grande a qualquer ser humano, especialmente aquele que não se projeta em seres fantasiosos.


    Felipe.

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  2. Cara, normalmente quando escrevo, isso tem para mim, uma boa dose de um efeito catártico. Agora, no ponto em que você focalizou no seu texto, não digo que a desmedida não-censura total seria algo boa, de fato creio que não.

    Mas sei que nesse espaço, como em alguns pouquíssimos, nesse mundo em que infelizmente, muitas vezes pouco se pode contar com as pessoas, mesmo com aqueles que você pode considerar "melhor amigo", a situação não é nada fácil.

    Para além de um pedido de socorro, que é algo que não é grato a ninguém pedir do meu ponto de vista, já que nem estaria se tendo o reconhecimento do outro amigo, que estaria mais preocupado com outras coisas, só restaria a ajuda paga do psicologo/psicanalista, que para mim só denota o fracasso do nosso tempo, e às neuroses que ele leva, ao mesmo tempo em que a solidão é maximizada (apesar de eu achar que está diminuindo, infelizmente, sou mais velho que você, estou com 26 e tenho a vaga impressão que uns 5 anos de diferença, no contexto social atual pode fazer uma real diferença).

    Particularmente quanto a esse blog, penso que tenho ao menos um fiel leitor, que é o meu amigo Laércio que comentei no post. Só isto já me traz algum alento, visto que minha luta de demanda por reconhecimento mínimo que seja, me é ainda permanente, devido à infância e adolescência mal vividas (tanto que não tenho nenhum amigo anterior a aproximadamente 2007, ou mesmo se falo com um ou outro que conheci antes, especificamente o karpa, o conheci em 2004, mas não falava muito com ele à época anterior).

    Mas então, minhas demandas são também por necessidades mal supridas que já deveriam estar resolvidas a contento, e as outras maiores, fazem parte da dor moral por estar já com 26 e não estar com a vida resolvida, ainda que eu tenha começado a trabalhar cedo, isto só acabou levando ao meu próprio fracasso (longa história, mas se quiser saber, conto com prazer).

    Não me é nem um pouco agradável pensar-me objetivamente situado na condição que estou atualmente, até mesmo por saber onde estou e todo o meu próprio desenvolvimento subjetivo (afinal de contas, em 2002 eu votava no erra, ia fazer ciencias da computação, e tinha uma percepção da realidade absolutamente ridícula), que se deu justamente por inúmeros revezes.

    Mas enfim, acho que o que peço da vida é na verdade bem modesto, o que me trás mais dor de cabeça é justamente o desentendimento familiar, justamente, porque nem tem como ter entendimento.

    Mas depois de ter escrito esse post, já posso dizer que pelo menos amanhã, seria bom estar vivo.

    Mas justamente por estar onde estou, e sem ter nada nas mãos e nada sólido, num mundo em que obviamente tudo se desmancha, vivo querendo viver, apenas um dia de cada vez.

    E vivo o dilema do jovem pouco qualificado. Se não arrumar um trabalho mínimo em que eu não ache tudo uma bosta (que já foram diversos, mas nem falo tanto quando ao salário), terei de aguentar o estado de não-emancipação, ainda que as condições econômicas familiares não estejam ruins, a minha não está boa.

    Ou é isso, ou aguentar um trampo que pode ser um inferno, para não ter que ouvir mais baboseiras sem sentido.

    Para mim agora virou mesmo, uma questão de tempo-limite... afinal de contas, é como se dos 19 (quando fui mandado embora da multinacional da área médica, em que trabalhava com eletrônica) até agora eu estivesse só "perdendo tempo" em termos de "carreira". Afinal de contas, meu pai trabalhou mais de 30 anos na mesma empresa, e ele ainda joga com as regras velhas...

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  3. Leandro,

    Fui me identificando em várias partes do seu texto. Desde criança tive problemas com a família – tais só poderiam ser compreendidos da melhor forma com certa maturidade -, encontrei evasão nos livros. Gostava muito de Álvares de Azevedo, Rimbaud, Baudelaire, Cruz e Souza, Bukowski e qualquer outro desgraçado ou trágico. De certa forma, com a arte, aprendi a degustar qualquer sensação, por mais penosa que seja. Nesse tempo começou também a aversão ao meio em que vivia, e aí fui me enterrando em um abismo que eu mesmo cavei.

    Mais tarde veio e a filosofia, livrou-me de muita coisa e transfigurou todo o meio. Enquanto adquiria a erudição de outrem, refletia, nas primeiras vezes, distanciava-me de tudo que me cercava e era o único momento que me sentia bem. Hoje tenho aversão a qualquer coisa que não seja a filosofia, e por isso quero distância de qualquer profissão. Agora trabalho, mas não sei aonde isso vai... No entanto ficou uma indagação: não estariam, aqueles que fazem a filosofia, falando a mesma coisa de formas diferentes? Há de se registrar um pensamento assim como se faz com um verso ou um quadro, uma inspiração, uma visão bela que aceitamos como a melhor para a vivência, não seria a filosofia mais uma forma de embriagar-se assim como a religião e a arte? Ou só o idealismo?

    E no final, a vontade salva a vida. Não seriam também "as criações humanas" uma forma de entreter-se e ocultar o absurdo até a morte?

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  4. Rauan, agradeço o comentário, e lhe responderei com mais calma mais tarde, pois estou um tanto apressado neste momento.

    Diria previamente apenas que concordo com isto que diz quanto ao registro de um pensamento ser como uma forma de embriagar-se como a religião e a arte.

    Na realidade, para mim trata-se justamente disto, do ponto de vista hegeliano, este o mais próximo do meu próprio.

    "O mais alto objetivo da Arte é o que é comum à Religião e à Filosofia. Tal como estas, é um modo de expressão do divino, das necessidades e exigências mais elevadas do espírito." - Hegel

    De fato, como sou ainda um entusiasta do racionalismo, em larga medida, acredito fortemente numa filosofia verdadeiramente sistemática e que dê conta da totalidade, como para mim o grande feitor disto é justamente Hegel, ao qual após seus escritos, a filosofia se fragmenta, e nunca retorna a esse tipo de sistemática anterior.

    Quanto a vontade salvar, deve estar se referindo também a Schopenhauer, mas se de fato a vida é absurda, e tenho certa lucidez para em minha determinação e cognição, entender estas criações como fantasias metafísicas, para mim, esta vontade pode ser justamente a vontade de não vivê-la, já que pode-se dizê-la absurda.

    Sou ainda dividido em toda a tradição filosófica ocidental e a oriental, independente de se dizer que no oriente não há filosofia, mas isto me leva a confrontar duas perspectivas completamente diversas: no ocidente o que há de verdade para mim, está claro pela História e seu desenvolvimento. No oriente, o que há de mais universal e que está para além de desenvolvimento extrínsecos à humanidade, uma verdade totalizadora que seria intrínseca ao próprio ser.

    Ainda me debato com isto, mas como apesar de descendente de japones nasci neste mundo ocidental, é difícil pensar verdadeiramente de uma maneira efetivamente mais oriental.

    Tenho vivido então na História e no seu movimento, fazendo o que me parece mais coerente a mim mesmo.

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